A experiência prática começou pelo caminho inicial da história do cinema infantil. O trabalho realizado foi feita de forma separada, onde cada criança tinha um tempo “a sós” e portanto toda a atenção voltada só pra ela, afim de estabelecer uma conexão e uma concentração maior.
O exercício realizado consistia em pensar em uma ação sem falas, ação essa que remetessem a criança o “universo adulto”. Ao escolher a ação, o indivíduo em questão deveria realiza-la de forma natural, como se aquilo fizesse parte do seu dia-a-dia, como se ele fosse o adulto. Essa representação seria realizada através da mimese, resgatada pela memória visual da criança, e também pela sua imaginação.
A primeira criança, Milena (10 anos), escolheu a ação de escrever uma carta e deixei que ela se sentisse livre nesse primeiro momento para escrever e “interpretar” da forma que achava adequado, porém ao gritar “gravando” o aspecto corporal dela mudou totalmente, o “natural” se tornou mecânico/artificial e o sorriso forçado por esta “sendo filmada” não saiu do rosto. [inserir algum autor que fale sobre o assunto]
Ao perceber que a artificialidade da cena não iria parar pedi para que ela parasse a ação, expliquei a forma que ela estava agindo e mais uma vez reforcei a necessidade da naturalidade em cena, em seguida pedi para que ela fizesse a ação novamente, com a desculpa de “quero ver como você faz sem eu estar gravando”, mesmo estando com a câmera ligada para tentar capturar essa espontaneidade. Acredito que o que eu tenho exercido nesse momento fora um tipo de manipulação, visto que a criança em questão fora persuadida a acreditar que a câmera não estava funcionando para assim me “mostrar” como ela faria a ação no dia-a-dia. O resultado foi satisfatório, o sorriso e postura artificial desapareceram mas as “olhadas para pensar no que escrever” ainda continuavam presentes. Tentei por meio da voz de direção [nota de rodapé 1] fazê-la dar o tempo que a ação precisava, e não fazer só por fazer, e ainda assim as ‘olhadas’ não alcançaram o nível natural, sendo assim pedi que a escrita dela se baseasse na sua experiência pessoal (como por exemplo a forma que ela escreve na escola), não tendo uma distância tão grande assim com o personagem ‘adulto’ que ela havia escolhido, como propõe Stanislavski em:
No trabalho o ator deve sempre começar de si mesmo, da própria qualidade natural, e então continuar de acordo com as leis da criatividade (…). A arte começa quando não existe papel, existe somente o “eu” em uma dada circunstância da peça (…). O ator realmente atua e vive seus próprios sentimentos: ele toca, cheira, ouve, vê com toda a fizesse de seu organismo, seus nervos; ele verdadeiramente atua com eles. [STANISLAVSKI apud BURNIER, 2009. p 95]
Ao relacionar a ação com algo do dia-a-dia da criança em questão, foi mais fácil fazê-la entender a naturalidade que eu estava querendo e portanto o resultado da cena em questão foi agradável.
A segunda criança, Bernardo (5 anos), pensou em uma ação que ele via todos os dias, mas que, para ele, remetia a essência de ser adulto. O ato de trabalhar é bem comum quando se pede a uma criança para “representar” um adulto, e com esse garotinho não foi diferente. O trabalho escolhido foi martelar um prego em um pedaço de madeira. Acredito que a escolha dele se deu pela realidade que esta vivendo atualmente, visto que seu pai esta construindo uma casa e o garoto sempre frequenta essa construção presenciando o trabalho do pai.
O interessante em filmar uma criança mais nova é que o “ar da câmera” não interfere em suas ações, elas ainda não se preocupam com a estética ou com parecer “bem” e portanto a naturalidade vem com mais facilidade do que com crianças mais velhas assim como com adultos como afirma Claire Simon [nota de rodapé 2] em uma entrevista em Paris, em 2007 “A diferença entre as crianças e os adultos, é que as crianças são menos narcisistas. O jogo interessa mais a elas do que sua própria imagem.” [nota de rodapé 3]
Bernardo arrumou o ‘cenário’ por ele mesmo, pegando tudo que ele achava que precisava para realizar a mimese de seu pai. Ele iniciou a ação com um rosto concentrado, acostumando-se com o peso do martelo em suas mãos, era a primeira vez que alguém o deixava realmente ‘manusear’ o instrumento de trabalho e acredito que isso tenha dado uma visão ainda mais natural a cena.
Bernardo arrumou o ‘cenário’ por ele mesmo, pegando tudo que ele achava que precisava para realizar a mimese de seu pai. Ele iniciou a ação com um rosto concentrado, acostumando-se com o peso do martelo em suas mãos, era a primeira vez que alguém o deixava realmente ‘manusear’ o instrumento de trabalho e acredito que isso tenha dado uma visão ainda mais natural a cena.
Como suas mãos são pequenas e a força não é tão grande em uma criança de cinco anos, o trabalho acabou se tornando cômico, trazendo assim uma frustração para a criança em questão. Ao tentar martelar por diversas vezes o mesmo prego, e este ultimo nunca se fixar na madeira, a raiva por não conseguir, começou a aparecer e as expressões naturais de frustração ficaram interessantes no enquadramento da câmera. Por enfatizar que o exercício deveria ser realizado sem fala, essa expressividade facial cresceu ainda mais, dando a captura de cena um aspecto cômico notável. Acredito que o cinema mudo com crianças tenha usado desse método “representação de um adulto em atividades que crianças não conseguem realizar” para retirar de seus atores mirins aquele excesso de expressividade característico desse gênero cinematográfico, pois foi notável com esse exercício que crianças menores tem expressões fortes naturalmente e se frustram rápido por não conseguir algo.
Com o passar da cena e ao se acostumar com o peso/textura do objeto, tornou-se mais fácil manusea-lo e dando assim um desfecho a cena. Porém a força que o garoto de cinco anos usou durante o processo de filmagem, demonstrou, mais uma vez, a grande expressividade que as crianças tendem a ter quando exploradas dessa maneira.
A terceira criança a participar do experimento foi a Gabriela de nove anos. Expliquei pra ela o objetivo do exercício e pedi para que pensasse na ação que para ela remetesse o mundo adulto. Depois de muito pensar e sugerir várias possíveis ações, a menina escolheu uma atividade que é realizada por sua tia todas as semanas: o ato de tocar violão. Acredito que as ações escolhidas pelas crianças vem muito da realidade que elas vivem, assim como a escolha feita por Bernardo, Gabriela escolheu uma ação que ela vê no dia-a-dia, visto que sua tia é uma aspirante a cantora e por isso esta sempre a tocar violão próxima a ela.
A menina arrumou a cena sozinha, pegou o instrumento e o livro de partituras da tia, e iniciou a leitura das notas, mesmo não sabendo realmente como toca-las. O que me deixou impressionada nessa cena foi a capacidade dela se concentrar em determinados momentos e “esquecer” a minha presença e da câmera enquanto lia as notas e tentava encaixar os dedos nos acordes. Porém a concentração não era de um todo, assim que ela ficava de certa forma frustrada ou ‘entediada’ com a ação escolhida, o olhar dela vagava para câmera, para mim, ou para outras pessoas que estavam no ambiente de filmagem.
Ao final da cena, quando a frustração por não conseguir tocar o que havia sugerido se tornou grande e a concentração foi embora, Gabriela tocou acordes simples que havia aprendido, mas como esquecera grande parte deles a comicidade da cena ainda era permanente.
Ao final da cena, quando a frustração por não conseguir tocar o que havia sugerido se tornou grande e a concentração foi embora, Gabriela tocou acordes simples que havia aprendido, mas como esquecera grande parte deles a comicidade da cena ainda era permanente.
[nota de rodapé 1] O diretor vai narrando ao ator as ações que quer que ele reproduza.
[nota de rodapé 2] Claire Simon, apesar de nascida em Londres, é uma cenógrafa, atriz, diretora de fotografia e realizadora no cenário cinematográfico francês, sendo diretora de inúmeros documentários que abordam a infância como temática principal.
[nota de rodapé 3] “La différence entre les enfants et les adultes, c;est que les enfants son moins narcissiques. Le jeu les intéresse plus que leur propre image.” [SIMON, Claire in LIVENCCHI, Nicolas. L’enfant Acteur: De François Truffaut a Steven Spielberg et Jacques Doillon. Paris, 2012. Pag 96.]
[nota de rodapé 2] Claire Simon, apesar de nascida em Londres, é uma cenógrafa, atriz, diretora de fotografia e realizadora no cenário cinematográfico francês, sendo diretora de inúmeros documentários que abordam a infância como temática principal.
[nota de rodapé 3] “La différence entre les enfants et les adultes, c;est que les enfants son moins narcissiques. Le jeu les intéresse plus que leur propre image.” [SIMON, Claire in LIVENCCHI, Nicolas. L’enfant Acteur: De François Truffaut a Steven Spielberg et Jacques Doillon. Paris, 2012. Pag 96.]








Aluna de Artes Cênicas da Universidade de Vila Velha. Blog sobre o desenvolvimento do projeto de tcc desenvolvido por mim. Serão postados aqui todas as minhas considerações sobre a pesquisa do tema escolhido, assim como as análises dos filmes e vídeos em que utilizarei os métodos descobertos.
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