Os anos de 30 e 40 foram marcados pela expansão dos anos de ouro do cinema Hollywoodiano. Apôs a crise econômica de 29 o cinema de entretenimento ganha uma grande notoriedade no cenário internacional e a criança passa, com a criação dos “Babies-stars” a ser a grande ideia dos cineastas para preencher um mundo que precisa de entretenimento. O primeiro diretor a se utilizar dos pequenos “Babies-stars” é o chamado King Vidor que em seu filme The Champ (1931) aproveita da liberdade que o audio [nota de rodapé 1] trás e deixa que seu ator mirim principal, Jackie Cooper, se aventure entre falas em canções em cenas “improvisadas”. Podemos claramente ver a improvisação do garoto em uma cena em que este pequeno ator esta sozinho em um telhado, buscando pequenas coisas (como chicletes e cigarros) que estão em latas. Durante toda a procura, o ator mirim cantarola uma música e solta frases soltas com “aaah, chicletes, vou pegar alguns” ou “eba, cigarros, tenho que levar alguns para o “Champ”’ antes de se virar para o telhado e andar por ele, ainda cantarolando sua música. É notável a atuação do pequeno ator, ele consegue, nesse início do cinema falado, sincronizar perfeitamente seus gestos e falas fazendo com que toda a sua encenação fosse convencível, sem “exagero” e também sem “inexpressividade”, porém podemos observar, no cinema dessa geração dos anos 30-40, a falta de sentimento que os jovens atores detinham em cena. Ainda no filme em que Jackie Cooper fora o protagonista, na cena em que o pai do garoto morre, o ator tenta por vários meios convencer os espectadores de que o sentimento de tristeza é real. Por diversas vezes ele chuta as paredes, dá socos nos muros, grita com os demais personagens, exagerando assim no aspecto “tristeza e revolta” de uma criança que perde o pai. Tais ações faz com que o espectador perceba que as lágrimas do ator são falsas, e que por mais que a situação do personagem implique tristeza, a criança artista não consegue realmente representa-la verdadeiramente.
A “babie-star” mais conhecida e também a figura mais emblemática para a criança no cinema até os dias de hoje é a pequena Shirley Temple. Com quatro anos de idade, a pequena atriz mirim atuou na série de pequenos filmes intitulado Baby Burlesks produzido por Jack Hays em 1932 e 1933. A série consistia em colocar crianças em situações semelhantes a de adultos, fazendo esses jovens atores realizar o que chamamos de mimesis [nota de rodapé 2], ou seja, a imitação de signos emitidos por adultos. A figura de Shirley Temple no contexto cinematográfico hollywoodiano é de fato complexo. A pequena atriz, aos quatro anos, já fazia papeis que beiravam a sedução extravagante de seu personagem e seus filmes seguintes só comprovavam tal imagem, deixando assim uma legião de fãs em sua grande maioria homens adultos. Shirley foi um dos únicos grandes fenômenos infantis cinematográficos até hoje e tal fato é consequência da imagem e do trabalho que os cineastas que a filmaram quiseram “impor” a ela, transformando essa pequena menina em um ícone singular que varia da pequena garota exemplar e de uma personagem extremamente ambígua que brinca com os códigos de sedução, como afirma Nicolas Livencchi em sua obra L’enfant Acteur.
D’un point de vue de mise en scène, cette idée se traduit essentiellement par un procédé omniprésent dans tous se films: Le renversement des codes. Au départ utilisé comme simple procédé comique dans des courts métrages qui proposaient des histoires adultes interprétées par des enfants âgés d’á peine cinq ans, le renversement se fait plus subtil dans les autres films avec Shirley Temple, même s’il est toujours source d’un décalage humoristique. [LIVENCCHI, Nicolas. L'enfant Acteur: de François Truffault a Steven Spielberg et Jacques Doillon. 2012, France. Pag 23][nota de rodapé 3]
Na grande maioria dos filmes interpretados pela jovem atriz, a criança é totalmente colocada em igualdade com o adulto e este ultimo, muitas das vezes é infantilizado. Essa forma de atuação foi e ainda é utilizada por alguns cineastras no cenário internacional, um exemplo clássico de infantilização do adulto em igualdade com a criança esta no filme Home Alone (esqueceram de mim) de Chris Columbus em 1997 onde os ladrões que invadem a casa do garoto representado por Macaulay Culkin são totalmente infantilizados.
Ainda na representação de Shirley Temple e método de atuação exigida pelos seus diretores, a emoção acerca do choro e da tristeza não é explorada de forma convincente em nenhum momento. Nos seus filmes mais marcantes quando criança, a atriz não derrama nenhuma lágrima quando tem de fazer seus papeis e todos os seus sentimentos são claramente exagerados e mentirosos, ainda que a atriz saiba muito bem usar suas expressões e gestos para apoiar o seu jogo de atuação.
Enfim, o período de 30-40 foi marcado pelas expressões exageradas e atitudes tanto estereotipadas quanto fictícias ao contrário dos anos que se seguiram que com o surgimento de novos métodos de jogo inovadores na nova Hollywood, beneficiarão os jovens atores do período que serão afrontados a papeis cada vez mais complexos trazendo assim ambiguidade a imagem da criança. É nessa “nova Hollywood’ que as crianças passam a desenvolver papeis em que sua imagem esta ligada a algo perverso, como em The night of the hunter de Charles Laughton em 1955 onde o diretor confronta o mundo da infancia com o mal absoluto.
nota de rodapé – A era do som no cinema foi introduzida pelo estúdio Warner Brothers em 1927, onde um dispositivo chamado Vitaphone foi lançado. Esse dispositivo permitia pequenos diálogos nos filmes, e o primeiro a se utilizar dele foi um musical intitulado The Jazz Singer. O primeiro filme totalmente sonorizado e sincronizado surgiu em 1928, também uma produção da Warner Brothers e a partir de 29 todos os filmes surgidos em Hollywood já se aventuravam na era sonora.
nota de rodapé 2 – Surgido com Aristoteles e Platão, o termo mimesis constitui na imitação de algo ou alguém. A diferença básica entre um pensador e outro é que Platão dizia que a mimese estava em tudo, inclusive na criação do mundo, e portanto a representação artística seria uma segunda imitação do mundo, enquanto que para Aristoteles o drama (ou a representação) é a imitação de uma ação, ou seja, a arte seria a representação do mundo como um todo. SUSIN, André Luís. Mimesis e tragédia em Platão e Aristóteles. UFRS. Porto Alegre, 2010.
nota de rodapé 3 – No ponto de vista da atuação em cena, essa ideia se traduz essencialmente por um processo onipresente em todos os seus filmes: A reversão do código. No inicio utilizado como um simples processo cômico nos curtas metragens que propunha histórias adultas interpretadas por crianças de apenas cinco anos, a reversão se faz ainda mais presente nos outros filmes com Shirley Temple, mesmo sendo sempre acompanhado de um toque humorístico. – tradução por mim.
Aluna de Artes Cênicas da Universidade de Vila Velha. Blog sobre o desenvolvimento do projeto de tcc desenvolvido por mim. Serão postados aqui todas as minhas considerações sobre a pesquisa do tema escolhido, assim como as análises dos filmes e vídeos em que utilizarei os métodos descobertos.
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