terça-feira, 15 de setembro de 2015

História do Cinema IV

Na década de 70 os filmes destaques se caracterizavam pelo chamado road-movie que consistia em filmes que se desenrolavam através de uma viagem em que os personagens participavam. A inspiração principal para esse gênero cinematográfico foi a película Lolita de Stanley Kubrick em 1962, onde nasce o interesse de ligação amorosa entre o adulto e a criança, ainda que Lolita seja interpretada por uma jovem adolescente. Os filmes do gênero road-movie que utilizavam crianças, ligavam-nas apenas com adultos do sexo masculino, justamente para que o espectador tenha essa visão de “relacionamento”, ainda que não propriamente amoroso, entre o adulto e a criança. Alice in den Stadten (Alice na cidade) de Wim Wenders – 1973 – é um dos primeiros filmes a expor essa relação, seguido por Paper Moon de Peter Bogdanovich no mesmo ano. O filme de Bogdanovich retrata a história de uma garotinha que após a morte da sua mãe é deixada sob cuidados de um estranho que tem como função leva-la para casa de seus tios. Durante toda viagem podemos observar aspectos na atuação da jovem atriz que de fato retrata a ligação de seu personagem com uma figura adulta, como o fato da criança de nove anos fumar sempre que esta nos quartos de hotel ou no carro, ou, ainda mais concretamente, o fato da menina sempre querer imitar os trejeitos da mãe, talvez para impressionar o seu ‘amigo’ adulto. O filme trás essas questões de forma sutil, porem é perceptível a tentativa de fazer a criança se parecer com um adulto, a ligação entre a criança e o adulto é feita de forma platônica nessas duas produções principais, dando lugar a um olhar mais paternal do que de sedução, embora essa ultima sempre esteja presente. 
A história complexa de sedução entre o adulto e a criança perde espaço na história do cinema, porém o estilo road-movie continua a crescer e a explorar o fantástico mundo de viagens entre um adulto e uma criança. Um exemplo atual de road-movie em que temos uma criança como protagonista e que o aspecto sedução não seja o foco do enredo é Little Miss Sunshine de Jonathan Dayton e Valerie Faris de 2006, onde é relatado a história da criança que insiste para que sua família parte em uma viagem para que assim ela possa participar de um concurso de beleza infantil. A necessidade de relatar as relações familiares, como em Little Miss Sunshine, vem de uma segunda fase do road-movie, onde Win Wenders, com Paris, Texas (1984) sentiu a necessidade de mudar o foco do gênero cinematográfico. O diretor inspirou com essa nova “visão” do road-movie diversos outros diretores a se inspirarem nessa mesma base e não foi diferente para Doillon e Spielberg que dirigiram La Vie de famille e War of the Worlds respectivemente, seguindo essa mesma lógica.
Essa intensificação das relações entre crianças e adultos no meio da road-movie, segundo Nicholas Livecchi, significa: 

“d’un point de vue narratif se répercute a l’évidence sur le jeu des comédiens: l’enfant, contrait de partager avec l’adulte a la fois l’espace et le cadre. Ainsi stimulé, le jeune acteur offre des performances étonnantes, souvent bien plus marquantes que lorsqu’il évolue dans un univers exclusivement enfantin.” 
[LIVENCCHI, Nicolas. L'enfant Acteur: de François Truffault a Steven Spielberg et Jacques Doillon. 2012, France. Pag 40] [nota de rodapé 1]

Sendo assim a divisão de tela e de papeis entre a criança e o adulto, embora seja um formula bastante conhecida no universo cinematográfico, traz nesse período histórico um beneficio maior acerca do papel da criança no cinema. Pois é a partir desse período que os papeis começam a ser mais enigmáticos e que a criança é pressionada a ser mais do que apenas uma criança em cena. 
Um outro gênero cinematográfico que marcou a atuação das crianças na história do cinema foi a face sombria infantil. A criança com seu olhar inocente trazia consigo um medo desconhecido do “rosto de anjo e alma demoníaca” que cineastas exploravam muito no decorrer dos anos 60. O inglês Alexander Mackendrick foi o primeiro a explorar de modo sistemático essa parte sombria sobre a infância, assim em seu filme A High Wind in Jamaica (1965), Mackendrick conta a história de sete crianças que se encontram presas em um navio pirata e enfatiza a natureza sádica e mórbida das crianças, como afirma Livencchi em sua obra [nota de rodapé 2]. Na película de Mackendreick é notável as implicações sexuais entre a criança de dez anos e o pirata adulto em cena, sinal claro dessa fase sombria que envolve a criança em filmes do gênero. Uma cena que retrata bem esse aspecto perturbador acerca do universo infantil é quando o capitão do navio se encontra em alto mar, e então ao voltar para sua navegação, encontra duas das crianças com uma bíblia na mão, velando uma terceira menina que se faz de morta. O personagem adulto se assusta com a cena e levanta a criança, mais velha, que se faz de morta, e ela com um olhar sedutor enquadrado pela câmera para que esse aspecto seja justamente notável, encara o pirata dando uma espécie de erotismo a cena em questão. O filme faz um crescente de jogos entre os personagens adultos e infantis, até que o espectador perceba que todos as brincadeiras, são na verdade “realidades” que se passam nas cenas. 

Nessa visão, os cineastas (em sua grande maioria ingleses) chegaram a conclusão de que as crianças em grupo formam uma comunidade tão violenta quanto a dos adultos, e com essa conclusão, são inúmeros os filmes feitos com a temática sombria acerca da imagem infantil, até a chegada dos filmes de terror onde a “imagem do mal” estava ligada a criança, como no filme de Wolf Rilla (1960), Village of the Damned onde todas as mulheres de uma cidade ficam grávidas ao mesmo tempo e dão a luz, também ao mesmo tempo, a crianças que irão se provar perigosas e cruéis. Nessa temática, como afirma Livencchi “l’enfant, naguére figure innocente, cache desornais sous une envelope angélique une seconde nature bien plus terrifiante” [nota de rodapé 3]

Nos anos 80, a aposta cinematográfica acerca do universo infantil foi grande, prova disso foi o maior sucesso mundial de 1982, onde Spielberg conta a história de um menino autista no filme E.T.  O surgimento dos novos babies-stars também contribui para esse crescimento do interesse no universo infantil, e atores como Macaulay Culkin ganham destaques mundiais. O sucesso dos filmes dos anos 80 que detêm uma criança como seu principal protagonista não trazem o retorno esperado, como o caso da produção dos estúdio Disney “Honey, I Shrunk the Kids”. Somente com a chegada de Harry Potter (2001) é que os cineastas atuais conseguem seguir o legado que Spielberg e Doillon deixaram desde o início dos anos 80. 
A partir dos anos 2000, com os filmes detendo a criança em um papel principal porém com temáticas voltadas para adultos, se tornou quase impossível filmar uma criança sem que o espectador lance um olhar crítico ao papel desenvolvido, pois como afirma François Truffaut: 

“En ce qui concerne les interprètes enfants, je crois qu’il faut absolument éviter les petites filles entre cinq et douze ans. A cet âge-la, les filles font du charme, cherchent a séduire, ne disent pas une phrase sincère, parlent faux exprès et jouent Manon [nota de rodapé4] dans la vie” 
[TRAUFFAULT, François in ALTMAN, Carol. Enfance.. inspiration littéraire et cinématographique. Summa, 2006. Paris. Pag.239][nota de rodapé5]


Ou seja, a crítica em relação a inocência da criança ainda existe, e esta cada vez mais sendo questionada nas produções cinematográficas atuais. Porém, o que é inquestionável é a evolução infantil acerca aos métodos de atuação desde o início da história do cinema. O jogo que hoje desenvolvem é bem elaborado, convincente e natural demonstrando assim uma evolução de seus gestos e personalidades, se imponto assim como um real artista a ser respeitado e não somente um objeto de manipulação de cena. É por esse motivo que as crianças artistas vem, cada vez mais, chamando atenção dos cineastas. 

[nota de rodapé 1]De um ponto de vista narrativo se repercuta sobre a evidencia do jogo dos comediantes: a criança, tende a dividir com o adulto o espaço e o quadro. Sendo estimulada, o jovem ator oferece performances inacreditáveis, muitas das vezes mais marcantes que quando ele evolui exclusivamente em um universo infantil – tradução por mim
[nota de rodapé 2]LIVENCCHI, Nicolas. L'enfant Acteur: de François Truffault a Steven Spielberg et Jacques Doillon. 2012, France.
[nota de rodapé 3] “A criança, notável figura inocente, esconde sobre um aspecto angélica uma segunda natureza muito mais terrível.” LIVENCCHI, Nicolas. L'enfant Acteur: de François Truffault a Steven Spielberg et Jacques Doillon. 2012, France. Pag 42 – tradução por mim. 
[nota de rodapé 4] A expressão “jouent Manon” significa o ato de ‘dar esporro’, gritar ou querer mandar em alguém.
[nota de rodapé 5] “Ao que consiste no interprete infantil, eu acho que deveriam absolutamente evitar meninas de cinco aos doze anos. Nessa idade, as meninas fazem charme, procuram seduzir e não dizem sequer uma frase sincera, falam errado de propósito e brincam de ser Manon na vida.” – tradução por mim.

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