No segundo exercício pedido para que as crianças realizassem, se tratava de uma cena falada. Foi dado a cada uma delas uma situação base e pedido que improvisassem, de acordo com a sua imaginação, a continuidade dessas cenas. O objetivo principal do exercício era ver, de acordo com a idade e situação social da criança, qual seria a continuação que ela daria para o que foi proposto, afim de verificar a naturalidade diante as câmeras ao improvisar algo falado. É necessário, quando se faz cinema com criança, que esta ultima esteja ‘a vontade com a câmera’ (se a proposta não for o desconforto) e portanto pedir para que ela mesma crie um monologo diante as câmeras é uma forma de ver a adaptabilidade e naturalidade que criança tem para com o objeto que a observa.
A primeira a realizar a atividade foi Milena (10 anos) e a situação dada a ela foi uma conversa com Deus. Foi deixado livre o contexto da conversa, não impus a ela um assunto a ser conversado, muito menos a forma desejada, deixei que ela interpretasse a “conversa” da forma que sua imaginação e vivência permitia e assim ela o fez. A escolha do ambiente também foi feita pela criança, acredito que nesse primeiro momento do experimento seja importante o fato da pequena atriz se sentir ‘a vontade’. Milena escolheu um lugar significativo para ela, o quarto em que seu avó, que falecera há pouco tempo, dormia, e que agora era dela. Acredito que tenha sido uma forma de se sentir mais próxima de Deus, por ter alguém tão próxima a ela (segundo suas crenças religiosas) perto a ele.
O primeiro take gravado, tendo em vista a forma livre de interpretação da ação, a criança em questão fez através de murmúrios. Sentou-se na cama, cruzou as pernas, juntou as mãos em sinal de oração, fechou os olhos e começou a murmurar suas preces. Durante esse pouco tempo de cena pude observar como as crianças se espelham em ações adultas e em movimentos clichês que se tornam imperceptíveis em suas visões, assimilando assim, mesmo que inconscientemente, esses gestos clichês a ações do dia-a-dia. O ato de juntar as mãos e fechar os olhos em sinal de “prece” nos demonstra como esses gestos que se tornam mecânicos fazem parte de uma forte representatividade que nos leva diretamente a entender a ação que se esta praticando, acredito que isso seja uma das características no cinema na infância. Para se convencer e convencer o espectador de algo, a criança faz uso de gestos cotidianos e simples, de fácil compreendimento e forte significado.
O objetivo do jogo, nesse exercício, era o uso da fala em frente as câmera, e portanto, apesar da criança obedecer a ação proposta, os murmúrios não se enquadravam na regra de utilizar a fala, e portanto a gravação foi parada. Pedi a ela para que no take seguinte ela conversasse com Deus em voz alta, e assim ela o fez, utilizando da mesma gestualidade da cena anterior. Após agradecer e pedir a Deus o que ela acreditava que se enquadrava no contexto da ação, ela parou a cena e ‘desconstruiu’ toda a postura que ela havia proposto para a sua ação, dando assim um final rápido para a cena em questão, e não tão satisfatório, devido ao pouco tempo utilizado. Acredito que o fato de estar sendo filmada em um momento que geralmente é íntimo, a tenha incomodado um pouco, e esse é um aspectos pelo qual se deve ter cuidado ao filmar uma criança. Segundo François Dolto [nota de rodapé1], em sua obra La Cause dês Enfants de 1995 a câmera pode servir como um instrumento de violação na vida tanto do adulto, quanto a da criança, visto que grande parte de suas ações são intimas e portanto filma-las deve ser feito com delicadeza e cuidado visto que a criança, ainda segundo Dolto, não compreende totalmente a intenção do cineasta, ou ainda do filme em que esta participando, e portanto a câmera registrar momentos ‘íntimos’ desse pequeno ser, deve ser tratado de forma cuidadosa. A maioria dos contextos das cenas representadas por crianças são ignorados por esta ultima, essa particularidade demonstra a manipulação que, muita das vezes, o cineasta exerce sob a criança, assim como exerce ao filma-la em um momento ‘intimo’. [nota de rodapé2]
No terceiro take, para evitar o constrangimento de estar filmando um momento particular, pedi para que a garota de dez anos fechasse os olhos e se entregasse a conversa, fazendo o possível para não notar a minha câmera parada em frente a ela. Pedi para que ela se imaginasse sozinha naquele quarto, que tornasse aquela conversa apenas dela e Deus, como se a terceira pessoa ali existente (no caso eu) não estivesse ali, e que desse mais tempo para a conversa se concluir também.
Milena fechou os olhos, e ainda na mesma estrutura corporal da primeira cena, começou a ação pedida. Depois da pequena conversa que tivemos sobre a câmera “não estar” ali, sua atuação foi bem melhor e pude, através das falas e da movimentação das sombrancelhas, observar mais uma semelhança que as crianças tendem a pegar, mesmo que inconscientemente, dos adultos. A criança em questão frequenta, semanalmente, uma igreja evangélica e portanto essa característica de sua vida pessoal era nítida em sua cena. Pude perceber, na forma em que ela repetia “E que o senhor venha tocar na minha casa, na minha vida, derramar sangue e poder, senhor” que as palavras pronunciadas, vinham claramente de um adulto ao qual ela se espelha na forma de rezar e não no modo em que uma criança, que não frequenta ambientes religiosos, rezaria. Acredito que a mimese da criança em relação ao adulto se torna ainda mais presente ao observarmos essas determinadas ações.
Bernardo fora a segunda criança a realizar o exercício. A ele eu dei um livro grande, pedi para que, ao invés de ler a história que ali estava, ele apenas imaginasse o que estaria escrito e contasse para mim, em forma de história, tentando assim me convencer de que ele estava lendo, mesmo sem realmente fazê-lo.
Devo confessar que me impressionei com a cena proposta pelo garoto de cinco anos. Através de algumas imagens do livro, ele conseguiu montar uma história totalmente convincente e diferente, não desviando o olhar das linhas presentes na página, ainda que não estivesse lendo. Essa concentração exagerada logo no primeiro take me fez pensar, mais uma vez, como crianças mais nova não se importam com a imagem que passam para a câmera, não necessitando de uma construção corporal nem gestual, visto que “ser eles mesmos” já basta.
A terceira criança a realizar o exercício foi Gabriela (09 anos), e pedi que conversasse com seu bichinho de pelúcia sobre o emprego de sua mãe, levando em consideração que ela não sabia exatamente o que sua mãe fazia, e portando deveria usar a sua imaginação para desenvolver um monologo que se enquadraria o ato de vender alguma coisa. Realizei algumas diversas tentativas até chegar a conclusão que não conseguiria sair com um resultado positivo daquela ação, acredito que a criatividade, embora seja característica na maioria das crianças, não esteja presente em todas as situações, visto que foi difícil tirar algo que fosse criado pela criança em questão. Gabriela só conseguia interpretar o que ela já havia presenciado, e portanto pedir que ela criasse um monologo de algo que sua mãe faz todos os dias não foi possível, justamente pelo fato dela não presenciar esse trabalho.
Para ter um resultado satisfatório durante a experiência com esta criança em particular, foi necessário mudar a abordagem e técnica e assim partir para a representação de algo que fosse parte do cotidiano da criança em questão e não de alguém próximo a ela. Pedi para que a garota escolhesse o seu urso de pelúcia favorito, para que ela tivesse a referência de algo que lhe fosse confortável e não enfrentasse as lentes da câmera sozinha. Dei a regra dela apenas encarar o bicho de pelúcia enquanto falava, virando-a de lado para que a câmera não fosse uma distração, e pedi em seguida que ela inventasse uma história para contar para seu objeto de conforto, podendo usar alguns elementos de uma história real. Ainda com o objeto para fazê-la se sentir mais confiante em frente as câmeras, o fato de estar sendo filmada a deixava totalmente desconfortável, a ponto de pedir por diversas vezes para que eu deixasse ela ensaiar antes de filma-la, com a desculpa de ‘não conseguir falar sem pensar’.
Como técnica decidi permitir esse ensaio, ocultando o fato da câmera esta sendo filmada, justamente para tentar capturar a naturalidade que queria para a cena porém a necessidade da criança da aprovação do adulto que a filmava era tamanha que por diversas vezes a pegava olhando para a câmera a fim de observar a minha reação em relação a história dela. Tal ação foi observada também por Claire Simon, uma cineasta francesa responsável pela criação de “Récreations” (1992), um filme em que se infiltrava em uma escola maternal afim de observar e registrar cenas de crianças em um “ambiente” natural a elas. Claire relata, em uma entrevista para o programa “entretien avec l’auteur” realizada em Paris em Março de 2007, que as crianças buscavam, sobretudo, uma aprovação/reprovação vinda dela, exercendo grande parte das ações em função da câmera que os observavam. Uma situação parecida ao que aconteceu com a Gabriela, fez parte do processo de filmagem da cineasta em questão, ainda na mesma entrevista, Simon relatou que uma das crianças começou a cuspir no chão durante as filmagens, observando a reação dela em relação a sua ação em frente a câmera, e então ela relata que explicou a criança:
“Je ne voulais pas qu’ils regardent la caméra parce que ce n’était pas avec moi qu’ils jouaient mais entre eux, et que tant que le sang ne coulerait pas, je n’interviendrais pas. Je n’interviendrais qu’en danger de mort. Ils ont testé beaucoup ce truc lá. I’ll y en a un qui mangeait de la boue, je lui ai dit: “Oh, mais je ne t’arrête pas, tu sais tu n’es pas mort””. [Claire Simon entrevistada pelo produtor Richard Copans no DVD Récréations.] [nota de rodapé3]
Assim como a cineasta em questão, expliquei a Gabriela que não existia o certo e o errado, e que naquele momento ela não precisava da minha aprovação, e portanto só deveria contar ao urso de pelúcia o que quisesse que eu não iria intervir no ação, que tudo aquilo era uma criação dela e eu apenas iria registrar.
Com o entendimento a ação a criança em questão decidiu contar uma história verídica em que ela era a protagonista para o objeto de conforto, tendo um resultado satisfatório na cena, utilizando um intenso contato visual com o objeto e fazendo dele seu objeto de ligação com mundo exterior, afim de manter a naturalidade e ritmo da cena.
[nota de rodapé1] Fraçois Dolto, La Cause des enfants, Paris, Robert Laffont, coll. Pocket 1995 pag. 139]
[nota de rodapé2] Por intimo quero retratar momentos em que as crianças vivem ‘com elas mesmo’, em seu mundo cotidiano.
[nota de rodapé3] “Eu não queria que olhassem para câmera porque não era comigo que eles estavam ‘jogando’ e si entre eles mesmo, e que enquanto não corresse sangue eu não interferiria. Eu só iria intervir em perigo de morte. Eles testaram bastante essa coisa. Teve um que comia lama e eu disse a ele: “Não pare não, você sabe.. você não esta morto” – tradução por mim [Claire Simon entrevistada pelo produtor Richard Copans no DVD Récréations.]





Aluna de Artes Cênicas da Universidade de Vila Velha. Blog sobre o desenvolvimento do projeto de tcc desenvolvido por mim. Serão postados aqui todas as minhas considerações sobre a pesquisa do tema escolhido, assim como as análises dos filmes e vídeos em que utilizarei os métodos descobertos.
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